8 de março – As mulheres e a Revolução Russa

A grande Revolução Russa de 1917, que completou cem anos, começou com uma greve de operárias têxteis de Petrogrado no dia 8 de março (ou dia 23 de fevereiro no antigo calendário russo). E, por causa desse acontecimento, a data acabou se universalizando como Dia Internacional das Mulheres. Augusto César Buonicore, historiador e presidente do Conselho Curador da Fundação Maurício Grabois

Clara Zetkin

Anteriormente, a Rússia era um país que possuía uma economia atrasada com uma estrutura social primitiva e um baixo nível cultural, onde as mulheres eram totalmente submissas dentro da família camponesa e com nenhuma perspectiva de vida diferente dessa. Nesse contexto o esforço para a emancipação das mulheres partia de patamares mais baixos e o jovem estado operário teria de dar saltos enormes a fim de reparar injustiças e costumes milenares, enraizados na sociedade russa. Senta que lá vem história

Essa situação mudou com o acelerado desenvolvimento industrial do país. Enquanto a agricultura da Rússia ainda assimilava a modelos do século XVII, a indústria quanto à estrutura capitalista e à técnica, já se encontrava no mesmo nível dos países ocidentais adiantados. A criação de várias empresas grandes que contavam com mais de mil operários cada uma, fez com que as mulheres fossem confiscadas pelo capital para trabalhar nas fábricas, com o objetivo aumentar a produção das máquinas e a taxa de mais-valia do capitalista.

A partir desse momento as mulheres russas deixaram de trabalhar no campo e passaram a exercer seu trabalho nos centros urbanos nas grandes fábricas. Porém a situação de desigualdade permanecia, elas eram superexploradas nas fábricas, sendo consideradas mão-de-obra barata, já que seus salários não se equivaliam aos salários pagos aos homens trabalhadores. Não tinham direitos trabalhistas, possuíam uma extensa carga horária, eram encarregadas de realizar as tarefas domésticas quando retornassem para casa. Nas fábricas, suportavam ainda o preconceito e a violência sexual. Os trabalhos carregavam ainda uma consciência machista que servia como pretexto para a exploração brutal que sofriam nos ambientes de trabalho.

As primeiras conquistas legais vieram com os decretos do governo operário cujos objetivos eram: abolir as leis que colocavam a mulher em situação de desigualdade em relação ao homem e liberar a mulher das tarefas domésticas.

Naquele longínquo oito de março dezenas de milhares de mulheres indignadas paralisaram o trabalho e marcharam pelas ruas da cidade com cartazes que diziam “Pão para os nossos filhos!” e “Retorno de nossos maridos das trincheiras!”. A Rússia czarista estava mergulhada na sangrenta Primeira Guerra Mundial e colhia resultados bastante negativos. Milhões morriam ou eram feridos nos campos de batalha. Nas cidades reinavam a fome e a miséria.

Após a Revolução de Fevereiro, e nos anos seguintes, foram instituídos certos direitos em relação à mulher, entre os quais se encontram: o direito de votar e de ser eleita para cargos públicos, proteção legal para as mulheres trabalhadoras, igualdade de direitos em relação ao matrimônio, supressão de todos os direitos do homem sobre a mulher, direito ao aborto legal e gratuito nos hospitais do Estado, direito ao salário igual ao dos homens, pelo mesmo trabalho, aumento do nível educacional das mulheres, entre outros.

Naquele dia paralisaram cerca de 90 mil trabalhadores. A manifestação das operárias foi tão impressionante – e o czarismo estava tão desmoralizado–que os próprios soldados se recusaram a reprimi-la e alguns aderiram a ela. Nos dias que se seguiram uma greve geral paralisou toda a cidade e se espalhou pelo país. As proibidas bandeiras vermelhas voltaram a tremular nos bairros populares. Foram recriados os sovietes de operários e soldados. Era o fim daquele regime opressivo e secular, que cairia dentro de alguns dias.

Escreveu a revolucionária comunista russa Alexandra Kollontai: “O dia Internacional das Mulheres de 1917 tornou-se memorável na história. Nesse dia as mulheres russas ergueram a tocha da revolução proletária e incendiaram todo o mundo. A revolução de fevereiro se iniciou a partir desse dia”. Outro dirigente soviético Leon Trotsky diria: “ninguém, absolutamente ninguém – podemos afirmar categoricamente baseando-se em todos os documentos consultados – supunha que o dia 23 de fevereiro marcaria o início de um assalto decisivo contra o absolutismo”. Portanto, aquela greve de mulheres, surgida quase espontaneamente, não fazia parte de nenhum plano insurrecional comunista. Ninguém esperava aquele desfecho.

Segundo Ana Isabel Gonzáles, “foi para relembrar a ação das mulheres na história da Revolução Russa que o Dia Internacional das Mulheres passou a ser comemorado de forma unificada no dia 8 de março. A decisão de unificação foi tomada na Conferência de Mulheres Comunistas, coincidindo com o Congresso da Internacional Comunista, realizado em Moscou em 1921”.

No dia 8 de março deste mesmo ano, Lênin escreveria no Pravda um artigo que dizia: “a metade feminina da raça humana é duplamente oprimida pelo capitalismo. A operária e a camponesa são oprimidas pelo capital, mas primeiro, e acima de tudo, inclusive na mais democrática república burguesa, permanecem, primeiramente, privadas de alguns direitos porque as leis não lhes concedem igualdade com os homens; e, em segundo lugar – e este é o aspecto mais importante – permanecem ‘escravas do trabalho doméstico’. Continuam sendo ‘escravas domésticas’ porque estão sobrecarregadas com a monotonia do mais mesquinho, duro e degradante trabalho na cozinha e nas tarefas domésticas familiares”. Continua ele: “aqui, na Rússia Soviética, não sobrou nenhum rastro de desigualdade entre os homens e mulheres perante a lei”.

No entanto, para a igualdade efetiva da mulher em relação ao homem, era necessário que houvesse uma economia na qual ela participasse de forma igualitária ao homem e que a livrasse do trabalho doméstico. A essência do programa bolchevique para a emancipação da mulher era sua liberação final do trabalho doméstico por meio da socialização dessas tarefas. Foi criado então um amplo programa de obras públicas, que trariam benefícios ao conjunto da população, mas, principalmente às próprias mulheres. O programa incluía a construção de moradias (que dignificavam a mulher), lavanderias públicas (que livraram as mulheres das tarefas domésticas), além de creches e jardins de infância (que davam educação às crianças), hospitais, escolas, restaurantes coletivos.

“O que a Revolução de Outubro deu às trabalhadoras e camponesas”, pôster soviético mostrando ao fundo escolas, bibliotecas, centros de cultura, de lazer.

No entanto, para a igualdade efetiva da mulher em relação ao homem, era necessário que houvesse uma economia na qual ela participasse de forma igualitária ao homem e que a livrasse do trabalho doméstico. A essência do programa bolchevique para a emancipação da mulher era sua liberação final do trabalho doméstico por meio da socialização dessas tarefas. Foi criado então um amplo programa de obras públicas, que trariam benefícios ao conjunto da população, mas, principalmente às próprias mulheres. O programa incluía a construção de moradias (que dignificavam a mulher), lavanderias públicas (que livraram as mulheres das tarefas domésticas), além de creches e jardins de infância (que davam educação às crianças), hospitais, escolas, restaurantes coletivos.

Lênin, como um bom marxista, sabia que a igualdade formal perante a lei ainda era insuficiente, pois na prática cotidiana a opressão poderia ser mantida. Por isso, concluiu: “Este é só um passo na libertação da mulher. Mas nenhuma das repúblicas burguesas, incluindo as mais democráticas, se atreveu a dar sequer o primeiro passo”.

Pelo que se tem notícia a primeira vez que se comemorou um Dia da Mulher foi nos Estados Unidos. O Partido Socialista daquele país, ligado à II Internacional, atendendo a um apelo de suas militantes aprovou no final de 1908 a seguinte resolução: “Recomendamos que todas as seções locais do partido socialista dediquem o último domingo de fevereiro de 1909 à realização de uma manifestação a favor do direito ao voto das mulheres”. Assim, o primeiro Dia da Mulher ocorreu num 28 de fevereiro. Devido à grande receptividade encontrada, no ano seguinte o evento se repetiu. Contudo, ele não tinha um caráter internacional e nem a forma principal de expressão era a paralisação do trabalho, visto que era no domingo.

Em 1910 as delegadas estadunidenses participaram da 2ª Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, realizada em Copenhague, e levaram consigo a proposta de realizar no último domingo de fevereiro um dia internacional das mulheres, tendo como eixo o direito ao voto para as mulheres. De fato, por proposição da alemã Clara Zetkin, foi aprovada uma resolução que dizia: “De acordo com as organizações políticas e sindicais do proletariado, as mulheres socialistas de todas as nacionalidades organizarão em seus respectivos países um dia especial das mulheres. Será necessário debater esta proposição com relação à questão da mulher a partir da perspectiva socialista. Esta comemoração deverá ter caráter internacional e será necessário prepará-la com muito esmero”.

Franco-atiradoras do exército russo na Segunda Guerra Mundial.

Como podemos ver, embora aprovasse a diretiva de se caminhar para a construção de um “dia especial das mulheres” de caráter internacional e socialista, não indicava uma data unificada para essa comemoração. O dia escolhido pelas alemãs e austríacas para primeira manifestação foi 19 de março de 1911. Escreveu Kollontai: “Seu sucesso ultrapassou todas as expectativas (…). Os homens ficaram em casa com seus filhos, para variar, e suas esposas, as donas de casa prisioneiras, foram às reuniões. Durante a maior manifestação de rua participaram 30 mil mulheres, a polícia decidiu tomar as bandeiras das manifestantes: as mulheres trabalhadoras protestaram. No tumulto que se seguiu, o derramamento de sangue só foi evitado com a ajuda dos deputados socialistas”. Assim, transcorreu o primeiro Dia Internacional da Mulher na Alemanha. As socialistas estadunidenses mantiveram o seu ato no último domingo de fevereiro e as suecas fizeram coincidir com o Primeiro de Maio. As datas não eram fixas e variavam de país para país.

Naqueles anos, as mulheres já possuíam uma força expressiva no interior do movimento sindical e nos partidos socialistas europeus e estadunidenses. Segundo Kollontai, em 1913 os sindicatos ingleses possuíam mais de 292 mil filiadas, os sindicatos alemães 200 mil; na Áustria eram 47 mil. Já existiam no seio da social-democracia alemã 150 mil mulheres e no austríaco 20 mil. Não era mais possível às lideranças socialistas desconhecer essa realidade. Se se quisesse avançar nas mudanças sociais rumo ao socialismo era preciso incorporar as mulheres trabalhadoras.

Contudo, muitos socialistas ainda resistiram quanto à realização de um Dia Internacional das Mulheres. Achavam que isso cindiria a classe operária. Aquilo seria uma concessão das mulheres socialistas ao feminismo burguês. O único dia para se comemorar era o Primeiro de Maio, dia internacional dos trabalhadores. Alexandra Kollontai e Clara Zetkin tiveram que travar uma dura polêmica contra tais equívocos.  Nesse seu esforço foram apoiadas por homens como Augusto Bebel, Karl Kautsky e Lênin.

Uma vitória ocorreu em 1914 quando as socialistas alemãs, russas e suíças comemoraram conjuntamente o Dia Internacional das Mulheres em 8 de março – decisão tomada no ano anterior. Graças ao prestígio do Partido Social-Democrata da Alemanha, esta virou a data referencial para as manifestações nos principais países capitalistas. A eclosão da Primeira Guerra Mundial e a traição das principais lideranças da social-democracia europeia, que apoiaram as suas respectivas burguesias durante o conflito, levaram a um refluxo ao movimento feminino socialista e internacionalista.

Maria Bochkareva, comandante do Primeiro Batalhão Russo Feminino da Morte

O Primeiro Batalhão Russo Feminino da Morte foi comandado por Maria Bochkareva e seu primeiro combate foi realizado em julho de 1917. Cerca de duzentos prisioneiros alemães foram capturados. Mesmo assim, a moral do Exército russo não foi recuperada e o batalhão não conseguiu reverter a situação militar do país durante a guerra.

Alexandra Kollontai fez uma constatação muito importante sobre essas primeiras manifestações internacionais do movimento de mulheres socialista até 1917. Afirmou ela: “O Dia Internacional das Mulheres na América e na Europa teve resultados impressionantes. É verdade que nenhum parlamento burguês cogitou fazer qualquer concessão aos trabalhadores ou responder às reivindicações das mulheres, pois naquela época, a burguesia não estava ameaçada por uma revolução socialista”. As coisas mudaram depois de fevereiro de 1917. Não por acaso as mulheres russas conquistaram o direito ao voto poucos meses depois (em julho), sendo seguidas pelas mulheres alemãs, austríacas, inglesas etc. Assim, a Revolução Russa impulsionou fortemente as conquistas políticas e sociais das mulheres no mundo todo.

O objetivo deste breve artigo é relembrar que o Oito de Março tem origem, e a ele deve a sua universalização, no movimento socialista e comunista, especialmente depois da Revolução Russa. Hoje ele faz parte do patrimônio de todas as mulheres conscientes – e não apenas das comunistas –, mas isso não nos desobriga de relembrar a sua história mais remota e homenagearmos suas principais personagens: Clara Zetkin, Alexandra Kollontai, Rosa de Luxemburgo, Inês Armand, entre outras combatentes da emancipação feminina e dos trabalhadores.

Batalhão feminino.

A revolução de outubro é relembrada como um evento protagonizado por massas e não por determinados indivíduos. As massas desejavam a saída da Rússia da guerra, e grande parte dessa massa era composta por mulheres. Eram professoras, estudantes, médicas, empregadas de escritório, que lutaram a favor da classe operária pela revolução.

Muitas mulheres da Revolução permanecem desconhecidas ou são raramente citadas ou sequer lembradas.

Curiosidades:

  • No dia 23 de Fevereiro de 1917, segundo o calendário russo da época, correspondente ao dia 8 de Março, várias mulheres costureiras e tecelãs de Petrogrado, juntaram-se mobilizadas e saíram à rua em modo de protesto, entrando em greve, exigindo a paz e pedindo pão, pois naquela altura existia muita miséria e fome devido à 1ª Guerra Mundial.

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