Exu tranca-copa

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Uma criança branca, uma negra e um indígena com um cocar entraram juntos na abertura da Copa do Mundo numa quinta-feira 12/06/2014. As imagens da televisão mostraram as crianças soltando uma pomba branca minutos antes do início da partida entre Brasil e Croácia. As emissoras omitiram, porém, a imagem do indígena abrindo logo em seguida uma faixa onde estava escrito “demarcação”.

O jovem guarani viu sua trajetória mudar, em 2014, quando foi convidado pela Federação Internacional de Futebol (FIFA), juntamente com outras duas crianças (uma negra e outra branca) para participar da abertura da Copa do Mundo no Brasil. Na ocasião, eles entraram no gramado do jogo Brasil e Croácia com pombas brancas simbolizando a paz. Após soltar a ave, o então menino de 12 anos — que é fã de futebol — mostrou ao estádio uma faixa com a frase “Demarcação já”, em referência à luta a demarcação de terras indígenas. Segundo o jovem guarani, a imprensa brasileira, na época, ignorou esse ato. Mas, a mídia internacional quis saber o significado daquele protesto. Depois disso, Kunumí conseguiu visibilidade, sendo convidado a falar sobre o tema em palestras e representando a própria aldeia.

“Pena que a grande mídia desviou as câmeras e escolheu não transmitir a única mensagem verdadeira dessa cerimônia”. Comissão Guarani Yvyrupa

Não basta ter poder, tem que ter espírito. Isso nós temos de sobra. Com o espírito do Exu tranca-copa, o espírito do povo das ruas, dos bêbados e equilibristas, dos palhaços de circo, dos bufões de esquina, dos mascarados, dos craques da várzea… nós vamos, aos poucos, “comendo” a FIFA.

Esse é o alicerce da nossa nacionalidade. A verdade subtropical do pensamento selvagem, o pensamento da fundação da nova civilização planetária. Homo Novus Bresilensis. Eis a virtude do jeitinho brasileiro e do “homem cordial” como produto de exportação. Porque essa é nossa herança mais profunda, nossa ontologia cultural brasileira. Boicotamos o Estado antes que ele boicote nossa espontaneidade. Driblamos os governos e o mercado e apresentamos ao mundo uma nova Copa do Mundo, onde a bola dividirá o campo com os protestos. Usamos a Copa para revelar ao mundo as mazelas do mundo. Nossa luta é contra as instâncias referendadas pelo Estado e pelo mercado, que tentam controlar as efervescências e organizá-las de acordo com a lógica normativa do poder. O poder que vem de cima e que é avesso ao húmus, aos que vivem no chão. Nossa filosofia é chã, como a do Manoel de Barros. Nossa tática é irracional, é anti-tática. O fim da política como estratégia de guerra. A refundação da política como experiência interna, regada à festa. A ordem primitiva. A vitória de Dionísio sobre Apolo. A derrota da ciência pela astúcia do mito. A superioridade da magia frente à desencantada religião. Não seria isso o verdadeiro “ateísmo com Deus” do manifesto antropofágico?

“Antes da Copa de 2014, eu sofria muito preconceito e ouvia falar que o indígena não podia fazer rap por uma perda de cultura. Não sabia fazer arte. Isso não é verdade. Aqui na aldeia sempre tivemos contato com a música, literatura, história e arte em geral. Hoje, temos que usar essa arte como protesto para expressar o que estão fazendo com nosso povo, com a floresta e com a cultura indígena. Essa luta pelas causas indígenas é o que me motiva”, assegura o MC.

A faixa do jovem de 13 anos lembrava a demora do governo federal para demarcar novas terras indígenas no Brasil. O garoto vive na aldeia Krukutu, na região de Parelheiros, no extremo sul da cidade de São Paulo, localizada entre os municípios de São Bernardo do Campo e São Paulo. Em uma terra maior, dizem os índios, poderiam retomar seu modo de vida tradicional.

A aldeia indígena Krukutu atualmente contam com cerca de 47 famílias que vivem no local, totalizando em torno de 300 pessoas, tendo como cacique, Karaí de Oliveira de 30 anos.

Kunumí MC no clipe de Xondaro Ka’aguy Reguá (Forest Warrior) dirigido pela Angry Films (Divulgação Assessoria/ Revista Cenarium)

Conhecido, internacionalmente, e com mais de dez mil seguidores no Instagram, o rapper indígena coleciona dois discos produzidos, o EP de estreia, “My Blood is Red” [lançado em 2017 em parceria com uma gravadora inglesa, após sua participação no Criança Esperança, da Rede Globo, em 2016] e o álbum “Todo Dia É Dia de Índio” [de 2018, sob o comando da produtora Matéria Rima].

Em 2019, o jovem guarani realizou o sonho de gravar com um de seus ídolos o sigle “Demarcação Já – Terra Ar Mar”, o rapper Criolo, um dos expoentes do estilo no País. A música denuncia o aumento do desmatamento nas invasões às terras indígenas ocorridas no Brasil, em 2019. Luciana Bezerra – REVISTA CENARIUM

Kunumí MC mostra força dos povos indígenas nos seus clipes. Gabe Maruyama

Quando nasceu, o hoje rapper indígena da etnia guarani, Kunimí MC recebeu o nome Werá Jeguaka Mirim [relâmpago, em guarani]. Ao batizá-lo, sua mãe sabia que o caminho do filho seria radiante. Lançou no dia 2 de setembro de 2020, o clipe de seu próximo single “Moradia de Deus”. O clipe é mais uma parceira com a produtora Matéria Rima.

Em meio a uma campanha pela demarcação de terras em todo país, os guaranis dizem que não são contra a Copa. Segundo David Karai, morador da aldeia do Jaraguá em São Paulo, os indígenas não participaram dos atos contra o mundial, mas dizem que o evento foi uma oportunidade para mostrar ao mundo a situação em que vivem. “Os guaranis estão vendo a copa, todos os jogos. Por isso mesmo nós temos que ir pra rua e mostrar que nós estamos vivos, para nós sermos lembrados”.

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Werá Jeguaka Mirim vem de família de artistas. Filho do escritor, poeta e palestrante indígena Olivio Jekupe, o cantor indígena escolheu o rap como ferramenta de veiculação de ideias em favor da causa indígena. Em suas composições ele aborda temas como respeito aos povos indígenas, importância da natureza e urgência da demarcação de terras e mudanças climáticas em decorrência do desmatamento.

O jovem guarani faz uma crítica aos jovens desta geração. “É preciso mais respeito e conhecimento dos jovens da cidade, pelos povos indígenas. Não só a literatura dos autores brancos, mas também dos autores indígenas. Além de conhecer uma aldeia indígena para saber a nossa realidade. Para isso, eu indico o livro “Tekoa” – conhecendo uma aldeia indígena”, recomenda.

Fiquei reparando que o povo guarani tem uma forma de agradecer a Deus ou rezar de um jeito interessante, sempre alegre. Não notei tristeza enquanto estive ali. As crianças pequenas ficam soltas, brincam enquanto o xamõi benze mais um. Sentia-me feliz por estar na casa de reza, no opy, mesmo não sendo minha religião. Grupo Editorial Global

Em conjunto com sua família, o livro “Literatura Nativa em Família”, primeiro livro indígena escrito por uma família guarani inteira e é vendido pelo site Amazon.

“Meus raps são uma forma de conscientizar os jovens da cidade, pois muitos não sabem a realidade que nós vivemos, tento levar o nosso sofrimento para que eles vejam que o índio também sofre”, frisa.

E completa: “meu rap é diferente por ser indígena e também pela melodia e o ritmo de cantar, que é próprio meu, além disso canto em guarani”. 

“O que me inspira é a natureza, pois é a moradia de Deus e o índio sempre acreditou nisso. Mesmo ouvindo que o índio é burro ou que não tem capacidade de conhecimento. Nosso povo respeita a natureza. E tudo o que aconteceu no passado é um preconceito contra o índio e eu transcrevo em minhas músicas”, destaca Kumuní MC.

Começou a escrever aos seis anos. A vontade pela escrita floresceu por influência de sua mãe, Maria Kerexu, e pelo pai, Olívio Jekupé — poeta e escritor que já lançou 19 livros de literatura nativa, e que vão desde poesia, contos indígenas, romance a textos críticos. Também já tem dois livros lançados — um em parceria com o irmão, Tupã Mirim, chamado “Contos dos Curumins Guaranis” e outro solo, “Kunumi Guarani”. 

O livro de poesias do seu pai, “500 anos de Angústia”, foi o que mais impulsionou Kunumí a começar a fazer rap. Inspirado pela poesia que leva o título do livro, ele escreveu uma poesia

“O que me motivou a ser escritor foi o que eu aprendi junto com a minha família, a preservar as nossas histórias, nossa cultura, justamente para que o nosso passado não se perca. Acredito que a literatura é uma forma de preservar em um livro, todas as histórias contada por alguém”, conclui.

Sobre as influências musicais, Kunumí MC aponta outros artistas indígenas como o grupo Brô MC’s, o rapper Oz Guarani, além do grupo Racionais MC’s e MC Sofia que fala sobre a cultura negra.

Temos aversão a todo tipo de ordenação, de disciplina, de racionalização que caracterizam o pensamento burocrático impessoal e as economias de todo o tipo. Somos atrapalhados e nos metemos em grandes confusões. Na verdade, essa é a nossa maior riqueza. É que não somos afeitos à domesticação. Nem a FIFA, nem o mercado, nem o Estado e nem ninguém conseguem amansar esse povo complexo e controverso. A FIFA já constatou: o Brasil é o pior país para se trabalhar a sério na organização do Mundial. Não há elogio mais gratificante do que esse. Lisandro MouraJornal Universitário do Pampa.

“O Brasil não é para principiantes”. Antônio Carlos Jobim

Outras lutas: Nhanderu Tenondé, Colab, Existe Guarani em SP, Cartilhas de agroecologia, saberes técnicos e tradicionais, Os Guarani convocam povo de SP para proteger Terra Indígena Jaraguá

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