VOCÊ CARREGA MUITO RANCOR?

“Cuide-se bem.
Perigos há por toda a parte
E é bem delicado viver,
De uma forma ou de outra,
É uma arte, como tudo.
Cuide-se bem.
Tem mil surpresas à espreita,
Em cada esquina
Mal iluminada,
Em cada rua estreita,
Em cada rua estreita do mundo.”

In: Cuide-se Bem – de Guilherme Arantes

Imagem Movimento Flor Chorando

O rancor é algo que se origina a partir de uma emoção genuína que, caso se instale, se transforma em um bloqueio impiedoso de outras emoções. É um sentimento que nos induz a susceptibilidades que podem redundar na mais pura rigidez psicológica. HELOISA LIMA

Nesta vivência, dois tipos podem ser identificados. O primeiro é o “eu sou menos / o outro é mais“, produzido por uma sensação de inferioridade que, desprovido de um sistema de defesa ou de capacidade de resposta racional, escolhe fugir daquilo que entender ser uma ‘disputa’ inglória. 

O segundo tipo, o “eu sou mais / o outro é menos“, envolve um caráter mais narcisista que experimenta um temor constante de passar por algum tipo de rebaixamento ou humilhação que busca contra-atacar o preconceito sofrido – sendo ele real ou não.

Por trás desses dois tipos encontramos uma dependência significativa em relação à opinião alheia e da aceitação geral.

Quanto mais você estiver ressentido, menos certeza você terá acerca de si mesma/o, porque o rancor nutrirá muitas expectativas infundadas em relação à amizade e ao amor, e será sempre, inevitavelmente, fonte de profundas e dolorosas frustrações.

Responda honestamente: você realmente fez o que almejou? Descobriu suas melhores perspectivas e possibilidades para, desta forma, realizá-las da maneira mais plena possível? Você teve a sorte de poder ser, integralmente, aquilo que aspirava, mesmo que em detrimento do que esperavam de você?

Se seus desejos não estão sendo realizados, se você não se sentir minimamente feliz com algum ou muitos aspectos da sua vida sem sentido, será uma forte candidata ao papel de predador dos pobres coitados que, desavisadamente, aproximarem-se de você, podendo se preocupar muito mais com a vida alheia do que com a própria e a explicação para tamanho desajuste será a falta de contentamento em relação à sua própria existência.

Porque uma vida sem realizações, sem um grau de satisfação mediano, torna-se, de fato, um farto quase insuportável de se carregar.

Daí a solução encontrada pela psique humana é fugir da realidade monótona e incômoda deixando de olhar para as próprias coisas e escolhendo fixar-se em tudo o que estiver “fora de si”.

E o que anda acontecendo com esta porção de gente nas redes sociais que, ingenuamente, acredita que pode mudar algo com algumas simples e vorazes “tecladas”? Existem algumas pelas quais me compadeço porque a primeira coisa que me vem à cabeça, ao ler insultos e declarações intolerantes proferidos por detrás desta telinha protetora (que, absolutamente, não nos esconde sequer de nós mesmos), é o grau de sofrimento pessoal que aquele ser suporta. Penso logo no quanto esta pessoa sente-se mal realizada, embrutecida e abandonada. Este é um caso. Os demais, representam pessoas ruins mesmo. De péssimo caráter. Iletradas, incompetentes e ignorantes.

Me surpreende observar como muitos são capazes de mudar de papéis sem se darem conta do que estão fazendo. De ‘injustiçados’ rapidamente se transformam em ‘algozes’. São capazes de convidar, com um sorriso leve e amistoso nos lábios, uma pessoa para os acompanhar numa ideia para, rapidamente, se transformarem em zangões enfurecidos diante de uma recusa.

A melhor forma de compreender os sentimentos que mais nos mobilizam é, inicialmente, contracenarmos com eles – e com os grupos com os quais partilhamos tais afetos.

Depois, afastarmo-nos deles a fim de percebermos o que ouvimos, dissemos e sentimos efetivamente. Permitir que a sincera reflexão se dê depois do ato – muitas vezes puramente reflexo – é o segredo do autêntico amadurecimento.

Deste modo, o indivíduo desarma-se e consegue perceber a si próprio de maneira mais genuína. Olhar para si sem medos ou subterfúgios: existe exercício mais profundo e importante do que esse?

Talvez se sobreponha o temor de enxergar-se de verdade. E falte coragem para assumir os equívocos praticados.

Portanto, preste muita atenção: se alguma pessoa próxima a você perdeu as estribeiras e passou a destilar ódios, rancores e venenos para todos os lados, sossegue. Não se preocupe nem dê bola para tais desatinos.

Esta criatura está apenas fugindo desesperadamente das questões que lhe são insuportavelmente próprias. Muito provavelmente sua vida esteja um caos que ela não dá conta de resolver.

Desse modo, pessoas que não se sentem amadas, que são pouco acarinhadas ou precariamente apoiadas; que nunca são abraçadas (essa falta provoca doenças físicas e emocionais) podem ser olhadas com muita condescendência e tato.

E, na pior das hipóteses, devem ser deixadas de lado. Até que abandonem a cegueira e a arrogância a fim de buscar a ajuda de que tanto necessitam, antes de se transformarem de bodes expiatórios em doentes crônicos e, muitas vezes, incuráveis.

Ainda que insuflem ódios e rancores despropositados.

Afinal, se você não é responsável pela desordem que se instalou ao redor de todos nós, simples humanos, não podemos ser o estopim de uma guerra que não entende, de fato e de direito.

Cuide-se bem. E mantenha a calma.

Ha’evete: Inimigo Meu Filme completo, 20 ideias para girar o mundo – Ailton Krenak, Suicídio indígena, “A MÃE DO BRASIL É INDÍGENA”

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